Nébula Rasa

Sobre a ira

Título:
Sobre A Ira/ Sobre Tranquilidade da Alma (Em Portugues do Brasil)
Autor:
Ano:
ISBN:
9788582850060
Idioma:
Nota:
4/5

Da vasta gama de emoções que somos capazes de sentir, a raiva é sem dúvida a que carrega mais efeitos colaterais. Ela compromete nossa capacidade de raciocinar e dá gastrites; é dispendiosa para a saúde mental e à saúde do bolso (estou olhando para vocês que já deram muito tapa em televisão velha ou praticaram arremesso de smartphones).

Há muito os filósofos gregos e romanos se interessavam sobre a natureza da raiva. Entre os tratados que sobreviveram até a época atual, inúmeros discursam sobre a ira, mas até hoje não li nada que fosse tão completo quanto Sobre a Ira de Sêneca, que condenava a raiva ao nível de uma insanidade momentânea.

“A ira [já] acarretou a um pai o luto; a um marido, o divórcio; a um magistrado, o ódio; a um candidato, a derrota.”

“[A ira] é pior que a luxúria, visto que esta desfruta de um prazer próprio, aquela, da dor alheia. Ela supera a malignidade e a inveja, pois estas querem que alguém se torne infeliz; aquela quer torná-lo. Deleitam-se estas com males fortuitos; aquela não pode esperar a fortuna, quer fazer sofrer quem odeia, não vê-lo sofrer.”

Fica claro nesses trechos a posição de Sêneca de que a ira é a senhora dos vícios e mais forte que qualquer faculdade mental. Como nem a razão é capaz de controlá-la (porque, segundo ele, a razão só é confiável quando ela não foi tocada por um vício), suprimi-la é o objetivo magno de uma pessoa em plena consciência.

Mas é possível suprimir a raiva? Melhor ainda: devemos suprimi-la?

Sêneca não possuía nem rigor científico, nem um grupo amostral suficientemente grande, tampouco a página da Wikipédia sobre psicologia cognitiva para saber que tentar suprimir os sentimentos é quase um estímulo para que eles cresçam. Sêneca, inclusive, critica Aristóteles por sua opinião branda de que tudo possui um meio-termo, inclusive a raiva:

“A excelência deve ter a qualidade de atingir o alvo do meio-termo. Estou falando da excelência moral, pois é esta que se relaciona com as emoções e ações, e nestas há excesso, falta e meio-termo. Por exemplo, pode-se sentir medo, confiança, desejos, cólera, piedade e de um modo geral prazer e sofrimento, demais ou muito pouco, e em ambos os casos isso não é bom; mas experimentar esses sentimentos no momento certo, em relação aos objetos certos e às pessoas certas, e de maneira certa, é o meio termo e o melhor, e isso é característico da excelência. […] Em relação à cólera também há excesso, falta e meio-termo. Embora essas situações não tenham praticamente nomes, ma vez que qualificamos a pessoa que está numa situação intermediária de amável, chamemos o meio-termo de amabilidade; quanto às pessoas que estão nas situações extremas. chamemos as que excedem de irascíveis e essa espécie de deficiência moral de irascibilidade, e chamemos as que pecam pela falta de apáticas, e essa espécie de deficiência moral de apatia.” (Aristóteles em Ética a Nicômaco)

Além disso, se o estoicismo, escola filosófica de Sêneca, prega que correto é agir de acordo com a Natureza, tentar suprimir por completo o mecanismo de “lutar ou voar” não seria uma forma de ir contra esta natureza? A raiva deve existir por uma razão evolutiva. Ela é um mecanismo de defesa que faz com que o indivíduo reaja, querendo ou não, quando seu espaço pessoal é invadido ou quando sua sobrevivência ou de seus entes queridos é colocada em cheque. Aquele que não se revolta nem um pouco diante de uma injustiça está mais próximo de uma briófita do que de um humano.

Entretanto, antes de ponderar mais se este sentimento deve ser suprimido, devo esclarecer a diferença entre alguns tipos de raiva. A princípio, consigo diferenciar entre duas espécies principais: a impulsiva e a premeditada.

A raiva impulsiva é momentânea e se aproxima ao máximo da cólera animal e da reação instintiva, como bater no seu monitor (mencionada anteriormente), de se defender diante de algum perigo, real ou imaginário, e que se dissipa juntamente com essa ameaça. Acredito que esta raiva seja como uma caldeira, e que só conseguimos resistir até certa pressão antes de explodirmos. A outra raiva, premeditada e constante, prefiro chamar de “ódio”.

A questão, segundo Sêneca, é que a raiva se caracteriza pelo regozijo em causar dano; você pode se revoltar, e deve, mas não se irar.

“Meu pai será assassinado: irei defendê-lo; foi assassinado: buscarei justiça, porque é necessário, não porque me dói. […] Irar-se pelos seus não é próprio de uma alma afetuosa, mas da que é fraca. […] Não é afeto que move [a ira], mas a fraqueza, tal como nas crianças que choram pela perda tanto de seus pais quanto de suas amêndoas. […] Deve-se então corrigir quem erra […] não sem castigo, mas sem ira”.

Apesar de reconhecer que lutar contra sentimentos é uma batalha perdida, também reconheço que a raiva momentânea e explosiva causa muito mais efeitos colaterais quando externada do que ódio, que se cozinha lentamente em fogo baixo e que, justamente pelo ritmo calculado, pode ser mais coerente e justificada. Sêneca, às vezes, toma a mesma postura da filosofia oriental e da psicologia cognitiva, isto é, a de deixar o sentimento se esvanecer por conta própria:

“Se [a alma] se projetou na ira, ao amor e em outras paixões, não é permitido reprimir-lhe o impulso; é imperioso que seja arrebatada e levada ao fundo pelo próprio peso e pela natureza proclive de seus próprios vícios”

“De fato, quando [impulsos perniciosos] se assentaram em seu domínio, são mais poderosos do que quem os controla e não toleram sofrer cortes ou ser diminuídos.”

Além disso, nem toda raiva (ou ódio) é justificável. Muitas vezes a raiva surge por uma falha de interpretação dos fatos, ou porque o sistema de resposta a estímulos do indivíduo está descalibrado e gera, não só a raiva, mas todas as emoções de forma desproporcional.

“Assim como as feridas doem a um leve toque, e depois até ante a suspeita de um toque, assim também a alma afetada pela paixão ofende-se por ninharias, a ponto de algumas – uma saudação, uma carta, um discurso, uma pergunta – as incitarem à briga. Nunca os doentes são tocados sem que se queixem.”

Então, por via das dúvidas, Sêneca receita o cultivo da atenção plena e a investigação das causas e natureza das emoções correntes, pois “ainda que uma pessoa não possa resistir a suas paixões, ao menos é possível impor obstáculos a elas”.

“O maior remédio para a ira é o adiamento, para que o primeiro fervor comece a perder força e a névoa que comprime a mente diminua ou fique menos densa. […] Se a protelação que se buscou não tiver tido efeito algum, ao menos ficará claro haver reflexão e não ira. Se quiseres conhecer a natureza de algo, confia-a ao tempo: não se discerne com exatidão nada que esteja em pleno fluxo”.

“Teremos garantia de não ficar irados se, um após o outro, tivermos exposto diante de nós todos os traços negativos da ira e a tivermos corretamente avaliado. Em nosso íntimo, devemos acusá-la e condená-la, perscrutar seus males e trazê-los a lume, e, para que se evidencie sua essência, deve-se compará-la com os piores vícios.”

Algumas vezes, no entanto, diminuir a probabilidade de se deparar com eventos que lhe causem raiva é melhor do que controlá-la – em outras palavras, “é mais fácil abster-se de um combate do que dele retirar-se”. E como nos abstemos do combate? Sêneca pode ter sido um dos primeiros terapeutas a recomendar a técnica de trigger avoidance e, certamente, ele tem excelentes recomendações do que não fazer a fim de evitarmos a raiva:

Fugir da coletividade

“Devemos evitar o fórum, a participação em defesas, os tribunais e tudo que faz ulcerar nosso mal […]”.

No Livro III, Sêneca deixa claro sua aversão a multidões. As redes sociais, pelo visto, são condenáveis desde o império romano e com razão: “as demais paixões acometem indivíduos, [mas] a ira é a única que por vezes é contraída coletivamente”. Deixo aqui um paralelo com o comportamento animalesco de multidões.

Evitar o multi-tasking

“Nunca, para aquele que se desdobra em muitos afazeres, o dia transcorre tão feliz que não surja, de um homem ou de uma situação, uma ofensa que disponha sua alma para a ira”.

No contexto do budismo hashtag, um dos pecados capitais é não praticar a atenção plena, muitas vezes considerada a panaceia de todos os males modernos. Curiosamente, Sêneca acredita que se concentrar em apenas uma tarefa pode nos poupar da ira.

Escolher suas batalhas

“As tarefas descomplicadas e fáceis obedecem a quem as executa; as de grande porte e acima da capacidade de quem as assume não se dão a um fácil manejo e, caso sejam empreendidas, oprimem e arrastam a pessoa que as administra, e quando parecem já dominadas, tombam junto com ela.”

Evitar a fadiga

“Os irascíveis devem renunciar também a atividades intelectuais mais intensas, ou devem exercê-las sem chegar realmente ao cansaço, e sua mente não deve ficar envolvida em ocupações penosas, mas entregar-se a artes amenas: que a leitura de poemas a acalme e a história a entretenha com suas narrativas; que seja tratada de forma bastante suave e delicada. Pitágoras apaziguava com a lira as perturbações da alma. […] São úteis aos olhos turvos as imagens verdes […] Os estudos prazerosos acalmam as mentes doentes.”

Em 2016, durante o desenvolvimento da minha tese de mestrado, eu não li nenhum livro de ficção, não terminei nenhuma série do Netflix, não viajei nas férias. É óbvio que minha vida pessoal entrou em crise, particularmente no auge dos problemas técnicos da minha pesquisa. A palavra “paciência” havia perdido o significado para mim, assim como a confiança no ser humano. Minha tolerância era mínima e meus relacionamentos foram severamente impactados durante este período. Em retrospecto, vejo que caminhei voluntariamente em direção ao burn-out. Se tivesse evitado a fadiga mental e me permitido relaxar mais, muitas brigas talvez tivessem sido evitadas e minha sanidade preservada.

Bônus: evite o crossfit

“[devemos igualmente] acautelar-nos do cansaço físico, pois ele consome tudo que há em nós de dócil e plácido e estimula as asperezas”.

Caso encerrado.

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